Quarta-feira, 28 de Novembro de 2007

Cantando e comendo por um jantar de sonho

                         

Recentemente uma amiga minha sentiu necessidade de comemorar com os seus amigos mais próximos, o primeiro aniversário da sua casa que se pretende de sonho.  Sendo a anfitriã uma pessoa culta e viajada, quis primar pela originalidade e em vez de se cingir ao comum jantar, resolveu acrescentar a tão importante celebração uma sessão de karaoke. Em conjunto com umas amigas tratou de toda a logística e agendou o acontecimento para uma noite fria de Outono.

 

Na data e hora marcadas, a campainha foi soando de forma ritmada e harmoniosa, anunciando os convivas que de sorriso nos lábios se apresentavam.  À medida que cada um chegava, era-lhe oferecido um “After Eight” e em jeito de agradecimento cada convidado devia beijocar todos os outros que já se encontravam em tão acolhedor lar (sortudos foram os que chegaram primeiro – comeram mais chocolates e foram mais beijados do que beijaram…).  Após este cerimonial cada um depositou nas mãos da anfitriã a garrafa de vinho ou licor compradas ou as sobremesas com tanto carinho confeccionadas (baba de camelo, tiramisú, bolo de ananás…).

 

Como já vai sendo hábito neste tipo de eventos, entre os convidados existiam mais mulheres do que homens.  Como nessa noite se jogava uma partida de futebol entre dois importantes clubes, os poucos elementos do sexo masculino concentravam toda a sua atenção na televisão, que passou a deter uma posição de destaque na casa.  À margem de tudo isto, as mulheres desnudavam os ombros, subiam as saias e riam toldadas pelo álcool que brotava de uma garrafa de forma fálica que tanto sucesso fazia.

 

Os comensais deliciaram-se com o repasto que foi feito de carne e peixe bem confeccionados, regado com bom vinho e finalizado com os deliciosos bolos, doces e afins.  Uma vez que a geração dominante neste jantar foi já educada numa democracia, houve a liberdade de escolher a loiça mais adequada para cada um - houve quem se decidisse por um prato de sobremesa para comer o bacalhau com natas e que depois tenha optado por um prato de tamanho regular para comer a sobremesa e houve quem logo desde início tenha assumido que iria comer muito, escolhendo um prato de sopa para a refeição principal. 

 

No final do jantar e numa onda de revivalismo, as mulheres dedicaram-se às tarefas domésticas e os homens concentraram-se no Benfica que jogava ou não fossem eles aspirantes a bons chefes de família.  A excepção foi uma jovem que se viu obrigada, de forma pesarosa e contrariada, a permanecer na sala junto dos homens, por a lotação da cozinha estar já em muito ultrapassada.

 

            Após os noventa minutos regulamentares do jogo de futebol, a televisão voltou a ser novamente a peça central de tão animado serão, ao projectar as letras das canções que iriam ser cantadas por quem possuísse uma voz bem afinada e melodiosa.  Rapidamente três grupos se formaram: o júri que criticava de forma construtiva quem cantava, os que cantavam bem sem terem necessidade de protagonismo e aqueles que tinham uma particular simpatia pelo microfone.  Este último grupo apresentou um reportório variado que incluiu canções em língua inglesa e portuguesa e nalguns casos até esboçou uma pequena coreografia que muito enriqueceu a sua prestação.  Os que cantavam bem preferiram manter uma postura sóbria optando por desempenhar o papel de coro de acompanhamento.  O júri esteve sempre bem em todas as opiniões que emitiu.

 

De tudo o que aconteceu nessa noite duas lições aprendi:

- quem não fala transformar-se-á numa sombra - um dos convivas não interagiu com o restante grupo e por essa razão na minha memória ele perdurará para sempre como uma mancha escura na parede perto da varanda;

- as línguas estrangeiras são tramadas para aprender – constatei por quem cantava, que a língua inglesa falada é substancialmente diferente da língua inglesa escrita.

publicado por Veruska às 14:53

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Domingo, 18 de Novembro de 2007

Patinagem no gelo... ou um casamento que foi esquecido

A quadra natalícia chegou e com ela chegaram também todos aqueles acontecimentos sem os quais não seria Natal: as iluminações de rua, os pais natais por todos os centros comerciais e os ringues de patinagem no gelo.  Se em relação aos dois primeiros já todos nos habituamos, o último é um fenómeno relativamente recente e que estranhamente se assemelha a um acontecimento que é por muitos considerado o “mais feliz de uma vida” – o casamento.

 

Há alguns dias dei por mim a observar vários adolescentes que patinavam numa pista de gelo artificial, numa tarde solarenga e excepcionalmente quente para a época. A primeira coisa em que pensei foi no consumo energético necessário para manter a pista “gelada” quando o Sol estava tão forte, mas logo de seguida comecei a fixar-me mais na coreografia que se desenhava à minha frente.  Os patinadores, que eram maioritariamente rapazes, descreviam quase sempre círculos no mesmo sentido e patinavam com muita rapidez.  Por vezes havia uma pequena variação – em vez dos círculos, movimentavam-se no sentido longitudinal da pista tentando interagir com as poucas raparigas que também por lá andavam.  Apesar da dificuldade óbvia dos patinadores em se equilibrarem nos patins, ao fim de algum tempo já se tinha formado um par que dançava de uma forma algo harmoniosa.

 

Enquanto observava este fenómeno, que em breve será considerado por muitos mais uma tradição tipicamente portuguesa a par com o “halloween” ou até quem sabe o “4 de Julho”, lembrei-me do casamento. Tal como a patinagem, o matrimónio também pode ser considerado uma dança a dois e para que seja levado a cabo com sucesso é extremamente importante que ambos os intervenientes se consigam equilibrar nos patins e que executem as mais variadas acrobacias com destreza e elevada mestria técnica.

 

Mais tarde, quando falei com um jovem que era frequentador assíduo do já referido ringue de patinagem no gelo, descobri que o horário em que se patinava e toda a atitude que se mantinha durante a actividade eram cuidadosamente planeados com antecedência e que pouco ficava ao acaso.  Também quando se prepara um casamento nada é deixado à toa, pois tudo é estudado de forma pormenorizada desde a compra do vestido de noiva até à escolha do local do copo-de-água.  Tal como para os patinadores que vão iniciar uma competição, também para os noivos o período que antecede a cerimónia é muitas vezes considerado stressante. A disponibilidade é pouca e as solicitações são muitas (é necessário enviar mail’s atestando o momento de felicidade que se avizinha, colocar uma entrada no diário do Hi5, alterar a mensagem de apresentação do MSN…).

 

Durante este período, às vezes também ocorre um fenómeno semelhante ao da patinagem, só que tem lugar numa pista de dança em vez da pista de gelo  – o noivo quando se cruza com elementos do sexo feminino  descreve trajectórias circulares em torno de si próprio.  Durante este ritual a interacção também existe e quando mais tarde ele é questionado sobre a razão pela qual não mencionou que era um noivo prestes a transformar-se em marido, ele só consegue responder “esqueci-me”.

 

Por vezes o mais importante é colocar os patins e rodopiar sem parar.

publicado por Veruska às 19:39

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Quarta-feira, 14 de Novembro de 2007

Diálogos e monólogos... ou um novo desporto radical

A actividade física sempre teve um papel muito importante na minha vida. De entre todos os desportos tenho uma especial preferência pelos radicais, já que estes apesar de estarem associados a condições extremas e elevados riscos físicos, permitem um estreito contacto com a natureza.
 
Recentemente tomei contacto com um desporto que na sua essência é muito radical: o blind date. Tal como o kitesurf, o bodyboard, a BMX ou bungy jumping, é praticado sobretudo ao fim-de-semana, leva a uma produção muito grande de adrenalina e necessita de equipamento muito dispendioso - é muito importante investir em algumas peças fundamentais: no caso dos homens a meia de cor escura que combine com os sapatos, e no caso das senhoras a mala que se conjugue harmoniosamente com a restante indumentária. Nesta actividade também se deve respeitar de forma absoluta o ambiente e as normas de segurança: não utilizar as unhas para esfregar qualquer parte do corpo ou retirar qualquer tipo de material de orifícios naturais, não atirar para o ar afirmações que possam ser menos simpáticas, não permitir que existam longos períodos de silêncio…
 
De Verão pratica-se quase sempre ao ar livre e de Inverno são os espaços fechados que acolhem tão emergente modalidade. Não é um desporto individual, mas também não deve ser considerado um desporto de equipa, pois só dois jogadores estão em campo ao mesmo tempo, e raramente há substituições durante o período regulamentar. Já no período de prolongamento, por vezes as regras alteraram-se totalmente, passando a existir uma norma única – sair rapidamente de campo. 
 
Os praticantes da modalidade classificam-se em duas categorias: os que utilizam o diálogo e aqueles que preferem o monólogo. O desafio é uma constante em ambas as classes. Quando se pratica o diálogo é necessária uma rapidez de raciocínio muito grande, para que se possa responder rapidamente de forma clara evitando todos os assuntos que sejam susceptíveis de causar embaraço e/ou grandes intervalos de tempo silenciosos. Se se quiser ganhar a partida, será importante omitir ou realçar comportamentos e/ou atitudes que levem o parceiro a pensar que temos as características por ele desejadas. No caso de se desejar ganhar o torneio, o melhor é jogar limpo. Uma competição de monólogo é exigente para ambos os praticantes, mas não de igual forma.   Quem o pratica tem de ter a habilidade de conseguir sempre encontrar um tema de conversa que não suscite a troca de ideias; quem o assiste tem de conseguir sorrir muito e manter uma postura interessada mesmo quando a mente teima em estar ausente.
 
Com o diálogo é mais fácil atingir um bom resultado no final do período regulamentar e com o monólogo o resultado normalmente não é favorável a nenhuma das partes envolvidas. Independentemente da estratégia utilizada, o importante é o “fair play”.
 
publicado por Veruska às 17:17

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Santos e mártires... ou um super-herói a menos

Alucinação e desilusão são duas palavras que além de rimarem se complementam na perfeição, ora vejamos:
- quando tomamos drogas entra-se numa espiral de alucinação seguida da desilusão do período de ressaca;
- quando nos apaixonamos perde-se a razão por completo e quando tudo termina rapidamente a decepção se instala;
- quando sonhamos deslumbramo-nos com uma ilusão que rapidamente desaparece.
 
Sempre tive um sonho. Um sonho recorrente que passeia pela minha mente, quer esteja acordada ou a dormir – o sonho de conhecer um super-herói. O objecto de tal desejo nunca foi um super-herói qualquer. Teria de ser um que voasse e na impossibilidade de lhe poder vislumbrar a face, pelo menos que vestisse uma roupa que o favorecesse. Os acessórios seriam muito importantes – não queria sapatos com asas, máscaras que não favorecessem o nariz ou orelhas ou ainda capacetes com cornichos; a harmonia cromática seria essencial – o amarelo seria de excluir automaticamente e o castanho deveria existir apenas em pequenos apontamentos. 
 
Dentro desta categoria surge logo de imediato o Super-homem. Todo vestido de lycra azul com uma capa e calções vermelhos. Quando voa estica o braço direito definindo-se de imediato a sua poderosa musculatura. Uma visão que proporciona de imediato um elevado grau de prazer a qualquer donzela.
 
Só que a vida é constituída por uma série de acontecimentos fortuitos e em vez travar conhecimento com o Super-homem acabei por me cruzar com o Homem-aranha. Este último também tinha o seu encanto. Era mais sóbrio e provavelmente mais desembaraçado que o Super-homem – veja-se a facilidade com que resolveu o problema de não conseguir voar. Em vez de arranjar uma capa que lhe cobriria os seus bonitos glúteos, encontrou uma forma de utilizar as teias de aranha para se deslocar como se fosse um chimpanzé balouçando-se nas lianas africanas.
 
Mas como todos os super-heróis, o Homem-aranha além de ser cheio de charme, tinha também todo o estilo que se possa imaginar: era um pouco alheado da realidade, tinha uma grande flexibilidade, pois frequentemente se posicionava de cócoras e vestia a já clássica roupa de lycra perfeitamente colada ao corpo, que funcionava como uma segunda pele.
 
Só que um dia ele foi avistado nas imediações do Coliseu de Roma, local onde muitos sofreram pela fé cristã e tudo mudou. Nesse dia uma transformação se deu. O sério, charmoso e enigmático super-herói transformou-se num comum mortal de ar feliz e braços abertos, convidando todos a um abraço planetário.
 
Hoje é dia de Todos-os-Santos, a altura em que os fiéis se deveriam penitenciar pelas suas faltas e recordar os santos não celebrados ao longo de um ano. Amanhã é o dia de Finados em que se reza pelos mártires já falecidos. Hoje é um dia triste e amanhã mais triste será. Hoje prestei homenagem a um super-herói, amanhã rezarei por ele.
 
publicado por Veruska às 17:16

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Uma valsa inacabada... ou uma garrafa que apenas respirou

 

 

A dança é uma actividade maravilhosa. É através dela que se pode expressar corporalmente o que se sente quando se ouve uma música que nos faz vibrar. A expressão corporal associada a esta actividade pode ser totalmente improvisada ou, pelo contrário, coreografada. Qualquer uma delas proporciona sempre prazer absoluto para quem a pratica.  
 
Existem muitos tipos de danças: as clássicas, as latinas, as brasileiras…  De entre estas saliento a valsa. Sendo esta uma dança de compasso ternário, caracteriza-se por ter três tempos: um tempo forte e dois tempos fracos.
 
Devido à sua versatilidade, esta dança pratica-se também com muita frequência fora das pistas de dança. Considero mesmo, que é no interior de muitos lares acolhedores que ela tem a sua maior expressão. Claro que aqui, esta valsa apesar de muito idêntica à valsa de salão tem algumas particularidades que importa salientar: em vez de se usar todo o corpo, dá-se mais ênfase aos movimentos executados com o tronco, especialmente braços e boca e também se utilizam acessórios específicos: copos e garrafas de vinho. O vinho poderá ser branco ou tinto, embora este último seja a preferência mais comum.
 
O ritual começa sempre com o alinhamento das várias garrafas, de forma a que todos se possam regozijar com a quantidade e a qualidade do vinho que irá ser consumido.    Depois retira-se a rolha à primeira garrafa, para que o vinho possa respirar durante alguns minutos antes de ser bebido.
 
Dá-se então início à dança propriamente dita - leva-se o copo à boca, engole-se e sorri-se com satisfação; leva-se o copo à boca, engole-se e sorri-se com satisfação; leva-se o copo à boca... Por vezes este compasso ternário inclui também um contratempo que irá alterar toda a melodia. Um exemplo é a quebra do saca-rolhas que altera a acentuação métrica natural do compasso, que passa agora a ser: olha para a garrafa, põe as mãos na cabeça e pragueja; olha para a garrafa, põe as mãos na cabeça e pragueja; olha para a garrafa…
 
Outra das diferenças que existe entre estes dois tipos de valsa é o efeito fisiológico que provoca nos dançarinos. No caso da valsa de salão, quem a pratique sentirá um ligeiro cansaço físico acompanhado de uma sensação de prazer, euforia e bem-estar geral despoletada pelas endorfinas produzidas durante a actividade física. Já no que diz respeito à valsa praticada com o vinho, o cansaço físico é acompanhado de fala entorpecida, gargalhadas descontextualizadas e sensação de “cabeça pesada”. Também é frequente aos praticantes desta última, sobretudo aos com menos prática da actividade, a coloração arroxeada dos lábios, dentes e língua. De comum às duas temos a sensação de relaxamento, que é muito mais acentuada no segundo caso, pois a partir de certa altura os dançarinos encontram-se tão relaxados que o pudor dá lugar à libertinagem (acentuam-se os decotes, desnudam-se as pernas, roçam-se as peles...).
 
A valsa termina quando os dançarinos estão num estado pré-comatoso, por vezes mesmo antes de serem bebidas todas as garrafas alinhadas no início do sarau, levando a um desperdício que deveria ser punido por lei.
 
 
Deve-se dançar até ao fim e nunca deixar por beber uma garrafa que já respirou.
publicado por Veruska às 17:13

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