Terça-feira, 4 de Março de 2014

Fui amiga do motorista do camião do lixo... ou a abstémia que há em mim


 

Há várias décadas atrás trabalhei numa fábrica de colas. Colas de muitos tipos: as brancas, as de contacto, as de caseína e mais um ou outros tipos.  Nesses anos (acho que chegaram a ser anos) muito aprendi.  As formulações das colas brancas quase não tinham segredos para mim; a contratipagem (cópia formulações) de produtos da concorrência era um desafio sempre desejado e ansiedade sobre as propriedades de cada lote da cola de caseína são impossíveis de esquecer.

 

Nesses tempos que já vão longe, outras memórias continuam ainda mais vívidas que as anteriores – a condução no carro velhinho sem a manete das mudanças, o misturador da cola de azulejos avariado que de forma aleatória caía e punha em risco a integridade dos já poucos operários, as pragas de pulgas que me obrigavam a não visitar a fábrica como forma de retaliação das insuficientes condições de trabalho e os operários.  Os poucos operários, simpáticos, humildes e trabalhadores. Os melhores e mais jovens já há muito tinham ido embora, intuindo que tudo aquilo iria fechar e que a única coisa que restaria seria uma das suas mãos à frente e a outra atrás.

 

O meu dia era intenso. Chegava muito cedo, para evitar o trânsito infernal de Lisboa, e cedo saía também, para chegar a horas ao ginásio (fazendo talvez uma centena quilómetros de por estradas alternativas que incluíaa o bairro da Musgueira e a verdadeira e velhinha calçada de Carriche). Mas nada disso interessa para este texto, que de repente me traz à memória emoções que há muito estão ausentes do meu ser.

 

Enquanto o meu ordenado suportou, almoçava sempre fora, muitas das vezes num restaurante familiar muito simpático a poucos quilómetros de distância das instalações da fábrica. Nunca mais esqueci dois dos sabores que eram recorrentes nos seus menus semanais: a sopa de nabiças e a mousse de chocolate com cheirinho. Se da sopa pouco há a dizer exceto que o seu aroma e proporção de nabiças de corte perfeito a elevavam ao nível de iguaria, já da mousse poderia ser escrito todo um romance em torno dela.

 

Não sei bem como tudo começou, mas de repente todas as refeições que lá eram feitas terminavam sempre com a dita mousse caseira fresquinha e escolhida pela cozinheira ou empregado, mãe e filho. Disso até ao cheirinho na mesma decorreu um tempo que não sei precisar. Só me lembro que de repente quer eu, quer as colegas com quem almoçava só pensávamos na mousse com cheirinho (talvez bagaço ou uísque) que nos alegrava o caminho de volta à fábrica e transformava a tarde que ainda restava num período de intensa produtividade.

 

Hoje compreendo a postura do empregado que curiosamente tinha de profissão condutor de camião do lixo, pois já nessa altura, o álcool devia ser uma constante a avaliar pelas vezes que nos cruzámos em pleno Bairro Alto com a consequente festa que muito admirava as minhas amigas e os senhores do lixo pendurados no camião.

 

Ainda bem que já se fez jurisprudência sobre o assunto e que a partir de agora talvez a melhor estratégia para a nossa tristeza no local de trabalho seja o álcool que leva os trabalhadores a “esquecerem as agruras da vida e empenharem-se muito mais”.

 

 

publicado por Veruska às 15:32

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