Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

Linhas cruzadas... ou um mito de infância

 

 

Só em 1982 é que passei a partilhar o meu lar com um aparelho telefónico.  Até lá, poucas vezes tinha usado tão especial artefacto.  Claro que sabia para servia, qual o seu aspeto e até grande parte da sua história. 

Nessa malfadada década de 80, eu, uma adolescente ainda no inicio desse período de revolta e teimosia, raramente tinha autorização para o usar. Não podia dar o número a ninguém, nem atender qualquer chamada a não ser quando expressamente instruída para o fazer.


Desses tempos recordo as conversas das minhas primas mais velhas que muitas vezes relatavam com emoção situações de linhas cruzadas. Segundo elas, algumas vezes levantavam o auscultador e ouviam vozes do outro lado e em outras situações, ao marcar determinado número acabavam por falar com totais desconhecidos sem que lhes fossem cobradas as chamadas.


Conseguir escutar um desconhecido que poderia ter histórias imensas para contar e tudo a custo zero era a ideia perfeita para encher a minha cabeça ávida de estórias.


De certeza que terei feito algumas tentativas lá em casa para apanhar as tais linhas cruzadas mas em virtude de nada me lembrar, estou certa que nunca as apanhei e até ontem, a várias décadas de distância, parecia-me que tudo não teria passado de fantasias muito bem urdidas por adolescentes sedentas de encobrir namoricos e amizades menos permitidas.


Hoje acredito que afinal as tais linhas cruzadas existem mesmo e que afinal quem as desconhecia era João Soares

publicado por Veruska às 15:33

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Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

O Segredo...ou telefonemas de gajos que gozam

 

Tenho uma formação científica e por essa razão não acredito em nada cuja Teoria não tenha sido já transformada em Tese. Isto incluiu conceitos como “Deus”, “Vida após a Morte”, “Destino”, “Astrologia”, etc. Mas como isto de ter um pensamento científico pode ser asfixiante para quem pretende uma vida com um pouco mais de cor, afirmo frequentemente para mim própria que ainda estamos numa fase tão inicial do conhecimento que isso nos impede de compreender coisas que nos parecem incompreensíveis.
 
Ciclicamente aparece sempre alguém que se anuncia como um portador de uma boa-nova que depois de apresentar as razões da nossa infelicidade, elenca o que devemos fazer para que a felicidade passe a ser uma constante na vida de cada um de nós.  Oiço sempre com atenção e com a expectativa de que algo de realmente novo surja e que finalmente o meu lado “místico” possa tomar conta de mim.  
 
O último fenómeno global nesta área deveu-se a um livro intitulado “O Segredo” que foi ou se calhar ainda é, um dos mais vendidos em todo o mundo.  Não o li, nem sequer vi o DVD; bastou-me ouvir a sua autora num programa de televisão a utilizar as palavras “física quântica”, “energia”, “lei da atracção” e “magnetismo” para eu perceber que se tratava de mais um logro (não dou o menor crédito a quem acrescenta termos científicos a um discurso que ninguém entende). No entanto, como na realidade sempre uma praticante da “Lei da Atracção” (segundo o Segredo, claro) estou sempre expectante em relação a tudo o que me acontece, incluindo o sucedido no fim-de-semana passado.
 
Tudo começa com uma chamada telefónica que recebo na manhã de sábado ao sair do um hipermercado com um carrinho cheio de compras.  Nesse telefonema alguém que se identificava como Pedro Reis, um antigo colega da escola secundária, apelava à minha memória dizendo repetidamente que eu era uma “porreiraça” pois sempre o tinha deixado copiar nos testes de Química. O nome não me dizia nada, mas lá num cantinho recôndito da minha memória sabia muito bem que sempre deixei os colegas copiarem por mim (sobretudo durante a faculdade). Usava essa estratégia para aumentar a minha popularidade entre os mais cábulas que eram sempre os colegas mais interessantes e divertidos.
 
Claro que sabia perfeitamente que não tinha tido nenhum colega com esse nome, e mesmo que ele tivesse existido nunca teria o meu número de telemóvel; na década de oitenta, telefones só fixos e às vezes nem isso. Mas como estava decidida a testar mais uma vez a “Lei da Atracção” lá fui fazendo o meu papel de ingénua e de crente em tudo o que ouvia.  
 
Conversa para cá, conversa para lá, e o tal Pedro Reis pergunta-me se eu também não me lembrava do Edson. Claro que não me lembrava de nenhum Edson; jamais conheci uma pessoa com esse nome e mesmo antes de lhe ouvir a voz termino a chamada. Tinha decidido que mais uma vez isto da “Lei da Atracção” não estava a funcionar; era impossível que a “Lei da Atracção” estivesse a responder aos meus pensamentos; acreditem que era mesmo impossível!
 
Mas como a minha racionalidade me incitava a ir mais longe, assim que cheguei a casa e utilizando o serviço 118, identifiquei a morada e o nome associados à chamada recebida – uma empresa de Consultoria e Recursos Humanos em Lisboa, situada num prédio onde tinha estado em Agosto a tratar de outro assunto numa outra empresa também lá sediada. A haver explicação para tudo isto decerto que será que afinal a Srª. Rhonda Byrne é dona de uma multinacional com um call-center sediado em Portugal e cujo único segredo que possuirá é a forma como teve acesso aos meus dados pessoais.
 
 
 
 
publicado por Veruska às 00:09

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