Alucinação e desilusão são duas palavras que além de rimarem se complementam na perfeição, ora vejamos:
- quando tomamos drogas entra-se numa espiral de alucinação seguida da desilusão do período de ressaca;
- quando nos apaixonamos perde-se a razão por completo e quando tudo termina rapidamente a decepção se instala;
- quando sonhamos deslumbramo-nos com uma ilusão que rapidamente desaparece.
Sempre tive um sonho. Um sonho recorrente que passeia pela minha mente, quer esteja acordada ou a dormir – o sonho de conhecer um super-herói. O objecto de tal desejo nunca foi um super-herói qualquer. Teria de ser um que voasse e na impossibilidade de lhe poder vislumbrar a face, pelo menos que vestisse uma roupa que o favorecesse. Os acessórios seriam muito importantes – não queria sapatos com asas, máscaras que não favorecessem o nariz ou orelhas ou ainda capacetes com cornichos; a harmonia cromática seria essencial – o amarelo seria de excluir automaticamente e o castanho deveria existir apenas em pequenos apontamentos.
Dentro desta categoria surge logo de imediato o Super-homem. Todo vestido de lycra azul com uma capa e calções vermelhos. Quando voa estica o braço direito definindo-se de imediato a sua poderosa musculatura. Uma visão que proporciona de imediato um elevado grau de prazer a qualquer donzela.
Só que a vida é constituída por uma série de acontecimentos fortuitos e em vez travar conhecimento com o Super-homem acabei por me cruzar com o Homem-aranha. Este último também tinha o seu encanto. Era mais sóbrio e provavelmente mais desembaraçado que o Super-homem – veja-se a facilidade com que resolveu o problema de não conseguir voar. Em vez de arranjar uma capa que lhe cobriria os seus bonitos glúteos, encontrou uma forma de utilizar as teias de aranha para se deslocar como se fosse um chimpanzé balouçando-se nas lianas africanas.
Mas como todos os super-heróis, o Homem-aranha além de ser cheio de charme, tinha também todo o estilo que se possa imaginar: era um pouco alheado da realidade, tinha uma grande flexibilidade, pois frequentemente se posicionava de cócoras e vestia a já clássica roupa de lycra perfeitamente colada ao corpo, que funcionava como uma segunda pele.
Só que um dia ele foi avistado nas imediações do Coliseu de Roma, local onde muitos sofreram pela fé cristã e tudo mudou. Nesse dia uma transformação se deu. O sério, charmoso e enigmático super-herói transformou-se num comum mortal de ar feliz e braços abertos, convidando todos a um abraço planetário.
Hoje é dia de Todos-os-Santos, a altura em que os fiéis se deveriam penitenciar pelas suas faltas e recordar os santos não celebrados ao longo de um ano. Amanhã é o dia de Finados em que se reza pelos mártires já falecidos. Hoje é um dia triste e amanhã mais triste será. Hoje prestei homenagem a um super-herói, amanhã rezarei por ele.