Greg Burk, Hugo Alves e Andy McKee são três músicos dotados e cheios de talento. Os dois primeiros tocam piano e trompete, respectivamente e o segundo aquilo a que se chama guitarra estilo fingertype. Além da música, do aspecto saudável, absolutamente normal e nada alucinado têm em comum um facto que me faz reflectir sobre o que passei nos últimos dias na minha terra natal – Cascais.
O que estes três artistas têm em comum é os concertos que deram no Centro Cultural de Cascais, instituição já com alguns anos mas que só esta semana passou novamente a fazer parte da minha vida. Este equipamento cultural fica localizado naquilo a que sempre chamei “Casas da Gandarinha” uma série de edifícios antigos habitados por retornados das ex-colónias (pelo menos era o que o meu pai me dizia, insinuando que amizades com quem morava ali não eram de bom tom) e onde morava o meu Marco de cabelo dourado encaracolado por quem tive uma paixoneta durante todo o meu nono ano de escolaridade e parte do décimo. É com alguma nostalgia que recordo as manhãs passadas sentada perto do Quartel à espera que o dito Marco (um desalinhado que, suspeito hoje, andaria “metido na droga”) assomasse a uma janela, facto que nunca se concretizou.
Na primeira noite cheguei bastante cedo ao local, recolhi o meu bilhete e esperei que as portas do auditório se abrissem. Os espectadores eram poucos e maioritariamente estrangeiros e com idade superior a 50 anos. Não sei se pelo meu ar demasiado circunspecto e observador ou pela roupa que vestia demasiado normal para Cascais (desta vez não tinha carregado na minha mala roupa para sair, ou maquilhagem e nem sequer uns sapatos ou botas de salto alto) ou ainda por não ser loira, senti-me observada por todos os ângulos: os casais franceses olhavam e comentavam, as nórdicas sorriram-me e o casal português lançava-me olhares pouco simpáticos. Nesses minutos que antecediam o espectáculo dei comigo a pensar que começava já a sentir-me desenraizada e que se calhar a pouco e pouco o Algarve se estava a entranhar através de todos os meus poros.
É nesse altura que vejo um homem cujas feições me pareciam familiares, a olhar-me com um ar quase lânguido de alto a baixo enquanto recolhia os seus bilhetes. Nessa altura apeteceu-me fugir tal era o meu desconforto. Alguns minutos depois percebi que afinal o tal homem era o marido de uma pessoa conhecida que não via há 10 anos; assim que ele me foi novamente apresentado retorquiu em jeito rápido “Eu bem me parecia que te conhecia” e mudou imediatamente para o modo “marido simpático para as amigas da esposa”!
Na noite seguinte voltei. O concerto era gratuito e a promessa de ver um guitarrista fingertype (coisa que desconhecia) envolto por uma guitarra muito estranha foram motivações suficientes para mim. Desta vez, a afluência de público era muito maior, a juventude imperava e o roça roça à porta da sala era inevitável. Quando o embaraço sem sentido que sentia por vestir a mesma roupa, se desanuviava (não me parecia que fosse observada detalhadamente por ninguém) oiço uma voz com uma entoação fantástica que me diz “Então, está cá outra vez?!”. Viro-me e vejo que quem me falava assim e me mostrava um maravilhoso sorriso era nada mais, nada menos, do que o Segurança de serviço, um senhor com mais de 50 anos, de cabelo totalmente branco e com a falta de um incisivo.
À medida que pensava “porquê eu?”, “o que é que eu tenho?”, “o que é que ele quer de mim?” e “porque é que não é um jeitoso que mete conversa comigo?”, o Segurança lá me ia congratulando por ainda ter conseguido um bilhete. Também me explicou que parecia que o artista dessa noite era muito bom e que os CD’s dele eram fantásticos e até me pediu para observar o meu bilhete para melhor me explicar onde iria ficar sentada. Confesso que fui antipática. Não alimentei a conversa, desviei o olhar por várias vezes e até tentei com todas as minhas forças não sorrir, não fosse ele sentir-se incentivado de alguma forma. O monólogo lá terminou com o Segurança a dizer-me já com uma ar mais sério e menos íntimo “Sabe, eu conhecia-a pela mala…”.
Gostava de acreditar que foi realmente a mala que me fez tão notada nas noites culturais de Cascais, mas parece-me que os 7 anos que levo de Algarve já transformaram profundamente esta menina da linha (e para pior…)!
A mala foi para disfarçar...Nunca estamos completamente incógnitos e há pessoas que nunca passam despercebidas, vejo que é o teu caso ...(nunca tive dúvidas, diga-se)