
A dança é uma actividade maravilhosa. É através dela que se pode expressar corporalmente o que se sente quando se ouve uma música que nos faz vibrar. A expressão corporal associada a esta actividade pode ser totalmente improvisada ou, pelo contrário, coreografada. Qualquer uma delas proporciona sempre prazer absoluto para quem a pratica.
Existem muitos tipos de danças: as clássicas, as latinas, as brasileiras… De entre estas saliento a valsa. Sendo esta uma dança de compasso ternário, caracteriza-se por ter três tempos: um tempo forte e dois tempos fracos.
Devido à sua versatilidade, esta dança pratica-se também com muita frequência fora das pistas de dança. Considero mesmo, que é no interior de muitos lares acolhedores que ela tem a sua maior expressão. Claro que aqui, esta valsa apesar de muito idêntica à valsa de salão tem algumas particularidades que importa salientar: em vez de se usar todo o corpo, dá-se mais ênfase aos movimentos executados com o tronco, especialmente braços e boca e também se utilizam acessórios específicos: copos e garrafas de vinho. O vinho poderá ser branco ou tinto, embora este último seja a preferência mais comum.
O ritual começa sempre com o alinhamento das várias garrafas, de forma a que todos se possam regozijar com a quantidade e a qualidade do vinho que irá ser consumido. Depois retira-se a rolha à primeira garrafa, para que o vinho possa respirar durante alguns minutos antes de ser bebido.
Dá-se então início à dança propriamente dita - leva-se o copo à boca, engole-se e sorri-se com satisfação; leva-se o copo à boca, engole-se e sorri-se com satisfação; leva-se o copo à boca... Por vezes este compasso ternário inclui também um contratempo que irá alterar toda a melodia. Um exemplo é a quebra do saca-rolhas que altera a acentuação métrica natural do compasso, que passa agora a ser: olha para a garrafa, põe as mãos na cabeça e pragueja; olha para a garrafa, põe as mãos na cabeça e pragueja; olha para a garrafa…
Outra das diferenças que existe entre estes dois tipos de valsa é o efeito fisiológico que provoca nos dançarinos. No caso da valsa de salão, quem a pratique sentirá um ligeiro cansaço físico acompanhado de uma sensação de prazer, euforia e bem-estar geral despoletada pelas endorfinas produzidas durante a actividade física. Já no que diz respeito à valsa praticada com o vinho, o cansaço físico é acompanhado de fala entorpecida, gargalhadas descontextualizadas e sensação de “cabeça pesada”. Também é frequente aos praticantes desta última, sobretudo aos com menos prática da actividade, a coloração arroxeada dos lábios, dentes e língua. De comum às duas temos a sensação de relaxamento, que é muito mais acentuada no segundo caso, pois a partir de certa altura os dançarinos encontram-se tão relaxados que o pudor dá lugar à libertinagem (acentuam-se os decotes, desnudam-se as pernas, roçam-se as peles...).
A valsa termina quando os dançarinos estão num estado pré-comatoso, por vezes mesmo antes de serem bebidas todas as garrafas alinhadas no início do sarau, levando a um desperdício que deveria ser punido por lei.
Deve-se dançar até ao fim e nunca deixar por beber uma garrafa que já respirou.